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Apilosidade facial nestes retratos parece ter sido aceita pelas retratadas, não apenas como uma “marca” visual característica, visando facilitar a sua identificação, mas como sinal de força, poder, e até de sensualidade.  \nPalavras-chave: pelos faciais; retrato; bigodes femininos; pintura do século XIX; história da arte; estudos de género.  \nAbstract  \nWe argue that the presence of upper lip hair, or even moustaches, in some female portraits from Portugal and Brazil during the first decades of the 19thcentury, did not mean to cause any kind of astonishment. Contrary to the representation of“bearded women” in Spanish painting from the 16th to the 17th centuries as anomalies, freaks, or “miracles of nature”, the facial pilosity displayed in these portraits seems to have been seen as a something positive. It seems to have been embraced by the sitters, not only as a characteristic individual visual “mark” allowing for them to be easily recognized, but as a sign of strength, power, and even sensuality.  \nKey words: facial hair; portrait; female moustaches; 19th century painting; art history; gender studies.  \nA presença de barbas e bigodes em alguns retratos femininos pintados na península Ibérica causa estranhamento ou desconforto. Antes do século XIX, raros exemplos pontuavam o fascínio das cortes barrocas pelo exótico; figuravam provavelmente em “gabinetes de curiosidades” ao ladode ramos de coral, cavalos marinhos secos, chifres de rinoceronte ou “unicórnio” – mementos de aberrações mais de retratos de indivíduos.  \nDe facto, embora a busca de uma semelhança física fosse fundamental para qualquer retrato, longe de ser a cópia fiel de uma pessoa, um retrato é antes de mais nada uma construção visual. Desde o primeiro tratado de pintura dedicado ao assunto, escrito no século XVI por Francisco de Holanda, considerava-se que os pintores deviam melhorar a aparência de seus retratados: se  \nRCL | Convergência Lusíada n. 36, julho – dezembro de 2016 101  \nPatricia Delayti Telles  \na pessoa fosse feia,“pareça que não é tão feia”(HOLANDA, 1984, p. 39) . Essa função cosmética levava a que a existência real de um buço ou bigode não implicasse necessariamente sua inclusão num retrato. Se o pintor considerasse que os pelos prejudicavam o modelo, não apenas podia – mas devia – eliminá-los.  \nAssim, por mais que a morenice mediterrânea ornasse de buços os lábios de muitas mulheres, a retratística europeia dos séculos XVII e XVIII parece quase não ter registrado “barbas”ou bigodes – a não ser aqueles que ornavam faces masculinas, e contribuíam para afirmar essa masculinidade. Surpreende, então, que nas primeiras décadas do século XIX alguns buços pronunciados comecem a surgir em retratos femininos.  \nO interesse por retratos mulheres com barbas data, pelo menos, do século XVI: em 1564, o reide Espanha Felipe II (1527-1598) possuía o de uma “muchacha Barbuda” pintado por Anthonis Mor, dito Antonio Moro (c. 1516-c. 1577) (SANCHEZ CANTÓN, 1947, apud RAMOS, 2013, p. 6), o mais famoso retratista de seu tempo. O famoso retrato de Brígida del Río, dita a “barbuda”de Peñaranda, com as mãos postas em pose delicada contrastando com a sua longa barba branca, foi pintado em 1590 provavelmente pelo espanhol Juan Sánchez Cotán (1560-1627), mais conhecido pelas suas naturezas mortas. Permanece nas reservas do Museu do Prado, em Madrid, estranho testemunho de “mostro horrendo y raro”(COVARRUBIAS, 1610), uma criatura cuja pilosidade facial seria objeto d","cbCaiu4t3m0rEsbC","https://ap.wps.com/l/cbCaiu4t3m0rEsbC","pdf",126660,11,"Portuguese","# Resumo\n## Palavras-chave\n## Introdução e enquadramento\n## Construção visual do retrato e função cosmética\n## Exemplos de “mulheres barbadas” na pintura espanhola\n## Circulação e interpretação das imagens","[{\"question\":\"Qual é a principal tese sobre a pilosidade facial em retratos femininos do século XIX?\",\"answer\":\"A presença de buços e bigodes em alguns retratos femininos luso-brasileiros não pretendia causar estranheza, sendo tratada como algo positivo e aceito pelas retratadas.\"},{\"question\":\"Como o texto diferencia esses retratos do que ocorria na pintura espanhola dos séculos XVI e XVII?\",\"answer\":\"Enquanto as “mulheres barbadas” na pintura espanhola são descritas como anomalias, freaks ou “milagres da natureza”, nos retratos luso-brasileiros do início do século XIX a pilosidade parece associar-se a força, poder e sensualidade.\"},{\"question\":\"Que papel teria a pilosidade facial como “marca” nos retratos?\",\"answer\":\"O texto sugere que os pelos funcionariam como uma marca visual individual, facilitando o reconhecimento das pessoas retratadas.\"}]","Mulheres com “cabelos nas ventas”: representações femininas luso-brasileiras nos séculos XIX e XX - artigo | PDF",1788504902]