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A freira afirmava que Cristo lhe aparecia regularmente e a visitava em sua cela, deixando-lhe chagas pelo corpo como marcas de sua aparição, chegando mesmo a colocar-lhe na testa sinais da coroa de espinhos. Quando a fraude foi supostamente descoberta – os estigmas teriam sido, na verdade, forjados com tinta, e a luz que invadia a cela da freira formando um halo em torno desi nada mais seria do que o efeito obtido com um fogareiro oculto –, a religiosa foi julgada pelo tribunal da Inquisição. Muito mais do que um romance com contornos históricos oscilando entre a santidade e a possível sublimação de um desejo místico,“A Monja de Lisboa” estrutura-se precisamente a partir da dúvida acerca dos estigmas que teriam acometido a religiosa, numa narrativa que reflete acerca dos mecanismos de controle social e do papel da Igreja, com suas atribuições e influências naesfera do poder. Por meio da denúncia da perigosa e conveniente aliança entre religiãoe política, a narrativa revela-se um poderoso retrato do Convento da Anunciada e dopapel da mulher no Portugal do século XVI. Dessa forma, o presente trabalho tem porobjetivo uma análise da imagem da protagonista à luz dos arquétipos da louca, damártir e da santa, faces recorrentes da mulher de então.  \nPalavras-chave:  \nBiografia. Feminino. Literatura. Religião.  \n1. História e Ficção: limites nem sempre claros  \n“A Monja de Lisboa” estrutura-se a partir de um eixo tríplice, cujas principais vias de leitura se referem aos limites entre História e Ficção, ao processo de mi(s)tificação da protagonista e a uma reflexão acerca do papel da mulher na sociedade quinhentista à luz de seus mecanismo de poder e de representação.  \nApesar de se debruçar sobre uma figura histórica, o romance apresenta considerações acerca da limitação que acometeria os historiadoresatuais, paradoxalmente mais dotados de fontes e mais parcos de entendimento do que os de outrora, como reflete a narradora no trecho inicial danarrativa:  \nO mal dos historiadores é que dispõem cada vez mais de fontes onde colher informações. E de tanto que estudam, turva-se-lhes o entendimento  \npara as coisas possíveis, tanto do corpo como da alma. Tudo são notas eaverbamentos, e muito pouco é ciência original ou traduzida do mapa que é o coração humano. (BESSA-LUÍS, 1985, p. 9)  \nA reflexão acima traduz um traço comum aos romances de teorhistórico de Agustina, quase como se a matéria histórica fosse mero pretexto para reflexões de teor psicológico ou digressões acerca da condição humana. Silvina Rodrigues Lopes, ao pensar o jogo entre História e Ficção na obra de Agustina, destaca o poder da imaginação como elemento fundamental à reconstituição das lacunas deixadas pelo passado:  \nDo que anteriormente se disse sobre a relação entre o trabalho artístico e a História, é possível concluir que o jogo da imaginação é um factor necessário ao seu cumprimento. De facto, por muitas fontes que se consultem (no prólogo de A Monja de Lisboa diz-se isso claramente), só a faculdade a que chamamos imaginação consegue atingir o silêncio que sefaz ouvir entre as ruínas do passado. (LOPES, 1992, p. 46)  \nAparecida Bueno, em estudo acerca das representações da escritora Florbela Espanca e de Maria de Menezes – A Monja do Convento da Anunciada – nos romances de Agustina, também destaca a alternância entre as citações de fontes históricas e o discurso literário, assumidamente ficcional:  \nO que num primeiro momento é dito com convicção, logo depois é atenuado através de suposição. 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