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No mito, o passado sustenta a origem de tudo e também orienta a leitura do presente e a projeção do futuro, atravessando vida terrena e vida após a morte. 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Na primeira, é pelo mito que se chega ao passado e se explica a origem de tudo e é ainda pelo mito que o presente é interpretado e se prediz o futuro, na vida terrena e na outra vida. Na segunda, que é a histórica, a afirmação da identidade indígena constitui uma luta política que se faz cada vez mais presente, com lideranças e demandas próprias. Os Guarani Mbya são tomados como o exemplo do processo violento de aculturação e de resistência à globalização, que pretende uma humanidade única, embora desigual em direitos.\nPalavras-chave: Resistência cultural; identidade indígena; mito e prática social, interculturalidade nos Guarani Mbya.\nAbstract: The exchange of worldviews between indigenous and western culture represents a reciprocal learning about interethnic confluences and oppositions, a process in which the boundaries between cultural values of the traditional shaman society, based on myth, and the historical one, lived in the material/spiritual rationality of the present moment constitute an inescapable theme. In the first one, it is by myth that one reaches the past and explains the origin of everything, and it is also by myth that the present is interpreted and the future is foretold, in earthly life and in the afterlife. In the second one, which is the historical, the affirmation of indigenous identity is a political struggle that is increasingly present, with its own leadership and demands. The Guarani Mbya are taken as an example of the violent process of acculturation and resistance to globalization, which seeks a unique humanity, yet unequal in rights.\nKeywords: Cultural resistance; indigenous identity; myth and social practice, interculturality in Guarani Mbya.\nIntrodução\nOs grandes encontros históricos entre europeus e os vários povos da África, Ásia e Américas acarretou consequências multiculturais. Talvez a de maior interesse foi o reconhecimento de que culturas vastamente separadas no tempo e no espaço tinham práticas religiosas e mitos estritamente similares. Quando os primeiros espanhóis e portugueses chegaram ao Novo Mundo, eles gostavam de tecer paralelos entre as religiões indígenas e o catolicismo romano, desenvolvendo algumas bizarras teorias sobre o fenômeno das crenças paralelas. Entretanto, por volta de 1900, cientistas sérios passaram a aplicar conceitos da religião comparativa e da mitologia em seus estudos, adotando duas abordagens básicas aos paralelos entre mitos e as culturas. A primeira é a da difusão, que considera que os mitos eram produzidos em poucas áreas de criação mitológica, como a Índia, difundindo-se dessas áreas, através de contatos entre culturas, durante os tempos primitivos. A segunda abordagem, a visão psicológica, acredita que os elementos fundamentais do mito são produtos da psique humana e são conceitos universais, compartilhados por todos os seres humanos. Em geral se admite que o mito seja largamente o produto da história oral, passada de geração a geração. Os mitos que começam com a criação do mundo são de fato “uma história da pré-história” (BIERLEIN, 1994, pp. 267-273). É improvável a possibilidade de se encontrar uma definição de mito que seja aceita por todos os eruditos e, ao mesmo tempo, acessível para os nãos especialistas, pois se trata de uma realidade cultural de extrema complexidade, passível de ser interpretada por meio de perspectivas complementares e múltiplas. 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