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O texto descreve a espera sem paciência, a pressa em ver o corpo morto, a exposição pública no velório e o enterro, detalhando cheiros, sons e imagens do ambiente. 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\nhttps://archive.org/details/umahistoriadefam0000sant  \n# UMA HISTÓRIA DE FAMÍLIA\n\n0 3+54992  \nUMA HISTÓRIA DE FAMÍLIA  \nRio de Janeiro —-1992  \nCopyright ◎1992 by Silviano Santiago  \nDireitos desta edicāo reservados àEDITORA ROCCO LTDA.Rua da Assembléia,10 Gr.3101CEP 20011—Rio de Janeiro —RJTel.:224-5859Telex:38462 EDRC BR  \nPrinted in Brazil/Impresso no Brasil  \npreparacāo de orginais:LENY CORDEIRO  \nrevisao  \nSANDRA PÁSSARO/WENDELL SETÚBALHENRIQUE TARNAPOLSKY  \nCIP-Brasil.Catalogacao-na-fonteSindicato Nacional dos Editores de Livros,RJ.  \n\n| Santiago,Silviano,1936-  \u003Cbr>Uma história de familia/Silviano Santiago.—Rio de Janeiro  \u003Cbr>S226h  \u003Cbr>Rocco,1992.  \u003Cbr>1.Romance brasileiro.I.Titulo.  \u003Cbr>CDD-869.93  \u003Cbr>CDU-869.0(81)-3  \u003Cbr>91-1028   |\n| --- |\n\nCada louco é guiado por um cadáver  \nArthur Bispo do Rosário  \n工  \nTodos querem a sua morte,tio Mário.Os mais próximos e os que mais te amam.  \nNinguém tem a paciencia da espera.  \nTodos querem a sua morte já,por decreto divino —parao seu bem,no seu lugar.Decidiram aqui na terra,decidido estálá em cima.A vontade nossa dos homens impera,chegou a ho-ra.Decisão feita em silencio tácito e conivente.São eles —oSmais próximos e os que mais te amam—que decidem sobre oseu destino.Não é você quem decide,tio Mário.Nem ao menoste consultam sobre a conveniencia ou a inconveniencia da fatali-dade naquele momento.Você sempre não passou de um cadáveradiado.  \nQuerem ver você morto naquele segundo.  \nNo minuto seguinte,querem todos estar chorando elamen-tando a sua morte.  \nNa hora seguinte ver voce deitado num caixão exposto à vi-sitacǎo pública na grande sala no refeitório da pensão,com asgrandes janelas abertas para a rua por onde entram os olhos ea curiosidade dos vizinhos,o latido dos caes vadios,o cocoricardas galinhas,o barulho suspeito de tosse ou de catarro cuspidona rua,o trinado variado dos passarinhos,o zumbido dos perni-longos e a poeira vermelha levantada pelos cavalos que passamgalopando e pelas carrocas trôpegas de um homem só na boléiatransportando sacos de alimentos de um lado para o outro dacidade.Pelas grandes janelas abertas entram sol e vida,noite esilencio e entra o cheiro adstringente e encardido da bosta dosanimais misturado à fragrância jasmim e dama-da-noite de flo-res abertas e silvestres.  \nA noite,sob a luz da opalina do globo manchado de titicade mosquito e aveludado pelo tapete de asas de mariposas afoi-tas emortas,querem ver o seu corpo resplandecente contornado  \npor lírios e vestido de terno branco,com camisa branca de cola-rinho,e ladeado por dois casticais que iluminam bruxuleanteso seu rosto de cera,de boca e olhos fechados,de onde a eterni-dade roubou o sorriso eterno da vida silenciosa e perambulante.  \nNa manha seguinte querem olhar uns aos outros cansados,malcheirosos e chorosos,maldormidos e enlutados,os homensengravatados e as mulheres de cabelos e ombros recobertos porvéu negro como em dia de missa,batizado ou casamento,umaou outra de missal e rosário desfiando oracoes pela sua alma,tio Mário,todos reunidos ao redor do caixǎo querem olhar unsaos outros matreiramente,envoltos pelo burburinho dos cochi-chos,satisfeitos com a solucāo afinal dada ao seu caso,enquan-to o cheiro de café passeia pela sala na bandeja com bule,xíca-ras e biscoitos maria.Meninos e meninas impertinentes,vesti-dos,lavados e escovados mais cedo para o enterro,avancam nosbiscoitos e,mastigando cumplicidade e reinacões,guardam pro-visões nos bolsos para o inesperado e longo e cansativo piqueni-que matinal.  \nQuerem,cabisbaixos e reverenciados pelos olhares vizinhose atristados das pessoas sentadas nas amuradas dos alpendres erecostadas no espaldar das janelas,querem ir revezando na tare-fa de carregar voce morto em enterro pelas ruas fofas e verme-Ihas da cidade até a subida do cemitério e querem,arquejantes,suados e aliviados,largar as alcas do caixao,vendo-o deslizar porcordas até o fundo da 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