[{"data":1,"prerenderedAt":-1},["ShallowReactive",2],{"doc-detail-37534-pt":3,"doc-seo-37534-112":29},{"code":4,"msg":5,"data":6},0,"success",{"doc_id":7,"user_id":8,"nickname":9,"user_avatar":10,"doc_module":4,"category_id":11,"category_name":12,"doc_title":13,"doc_description":14,"doc_content":15,"file_id":16,"file_url":17,"file_type":18,"file_size":19,"view_count":4,"is_deleted":4,"is_public":20,"is_downloadable":20,"audit_status":20,"page_count":21,"language":22,"language_code":23,"site_id":24,"html_lang":23,"table_of_contents":25,"faqs":26,"seo_title":13,"seo_description":14,"update_tm":27,"read_time":28},37534,5909877438554,"Maeve","https://ap-avatar.wpscdn.com/avatar/5600025385ad2bf12a7?_k=1778553567797529272",27,"Literatura","JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS. História dos Trinta Dias","Texto em português de crônica literária de Joaquim Maria Machado de Assis, dividido em partes datadas de fevereiro a março de 1878, que reflete sobre o contraste entre a brevidade da crônica e a vastidão do tempo de trinta dias. O autor comenta instabilidades políticas, transformações sociais e mudanças no espaço europeu após a queda da Turquia, além de registrar lutos e desaparecimentos na imprensa. A prosa combina observação histórica, ironia e crítica cultural.","História dos trinta dias  \nTexto-fonte:  \nObra Completa de Machado de Assis, Edições W. M. Jackson, Rio de Janeiro, 1938.  \nPublicado originalmente na Ilustração Brasileira, Rio de Janeiro, de Fevereiro de 1878 a Março de 1878.  \nFEVEREIRO DE 1878.  \nI  \nAssim como as árvores mudam de folhas, as crônicas mudam de título; e não é essa a única semelhança entre a crônica e a árvore. Há muitas outras, que nãoaponto agora por falta de tempo e de papel.  \nO caso é que quando eu cronicava a quinzena tinha diante de mim (ou antesatrás) um espaço limitado, um período cujos limites podia ver com estes olhos que a terra me há de comer. Mas trinta dias! É quase uma eternidade, é pouco menos de um século. Quem se lembra de coisas que sucederam há quatro semanas? Queatenção pode sustentar-se diante de tão vasto período?  \nExemplo:  \nHouve no princípio do mês uma mudança ministerial, uma completa alteração napolítica do governo. Que virei eu dizer de novo trinta dias depois? Quinze dias, vá; ainda parece que a gente vê o sucesso; os acontecimentos não são de primeira frescura, mas ainda estão frescos. Um fato de trinta dias pertence à história, não à crônica.  \nDigo isto, leitor amigo, para que, se alguma vez esta crônica te parecer mofada, fiques sabendo que a culpa não é minha, mas do tempo — esse velho e barbudo Cronos, que a tudo lança o seu manto de gelo.  \nMenos nas minhas costas que neste momento parecem uma encosta do Vesúvio. Lá me escapou um trocadilho. . . não risco; antes isso que uma injúria.  \nNem há outra utilidade nos trocadilhos.  \nII  \nEnquanto se discute se a Câmara será ou não dissolvida, agora ou logo, vamos nós ficando dissolvidos lentamente, de maneira que em Março ou Abril não sei serestará um quarto ou um quinto de população.  \nPela minha parte estou já dissolvido de todo, ou pouco me falta. Isto com que pego na pena, já não é mão, é um fragmento, um cavaco, uma réstia de ossos. Não tenho nariz; essa cartilagem com que me dotou a natureza, degenerou  \ninteiramente, e com ela o vício de Paulo Cordeiro e o da curiosidade. Já não posso meter o nariz onde sou chamado e muito menos onde o não sou .  \nHá chuva; eu bem sei que de quando em quando caem algumas canadas d’água; mas o sol vinga-se desses intervalos, carregando a mão quando lhe chega a vez.  \nPor fortuna, o ano não é bissexto, de maneira que o Fevereiro apenas nos perseguirá com 28 dias. É uma consolação. O dia 1 de Março pode ser quentíssimo, horroroso; mas é uma consolação pensar a gente que está em Março, que o verão vai despedir-se por alguns meses!  \nNo meio de todo este fogo, foi agradável saber que as chuvas já caem no interior do Ceará . Ainda bem! Venham elas lá e cá, mas sobretudo lá, onde tantos milhares de irmãos nossos se viram a braços com o terrível flagelo. Nós temos orecurso de não morrer de fome; mas eles?  \nAgora é tratar de evitar outras.  \nIII  \nQuem também evitará outras é a Sublime Porta.  \nCaiu enfim a Turquia, foi vencida pelo urso do norte, fato que parece alegrar ameio mundo, ainda não sei porque .  \n— Por que? Porque são infiéis, dizia-me há dias um vizinho que não põe os pés na igreja.  \nQualquer que seja a culpa, a verdade é que vamos ter a paz de Europa; e parece que dentro de pouco tempo os turcos estarão na Ásia.  \nConstantinopla deixará de ser a última cidade pitoresca da Europa. O formalismoocidental (porque São Petersburgo é uma Londres ou uma Paris mais fria) vai ali estabelecer os seus arraiais. Adeus, cafés muçulmanos, adeus, caftans, narguilés, adeus ausência de municipalidade, cães soltos, ruas mal calçadas, mas pisadaspelo pé indolente de otomana; adeus! Virá o alinhamento, a botina parisiense, acalça, estreita e ridícula, o fraque, o chapéu redondo, toda a nossa miséria estética.  \nAo menos, Constantinopla, resiste alguns anos até que eu te possa ver, e ir respirar as brisas do Bósforo, ouvir um verso do Alcorão e ver dois olhos saindodentre o véu das tuas belas filhas. 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