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Mas a falta de médicos é apenas uma das mazelas do SUS, que sofre com aprecariedade dos hospitais e o subfinanciamento crônico  \nPOR RODRIGO MARTINS e WILLIAN VIEIRA  \nQuem passa a grade que separa o mundo externo do Hospital Geral Clériston Andrade, em Feira de Santana, no interior da Bahia, sente na pele o caos da saúde pública brasileira. Os corredores são ladeados de doentes em maças e cadeiras, a respirar uma atmosfera pesada de doença e descaso. Não há ventilação ou leitos suficientes. Cinco cirurgiões se revezam para atender como podem os 200 pacientes que adentram o setorde emergência todo d ia. São mais de 6 mil atendidos ali todo mês e o hospital é referência para 126 municípios e cerca de 2,5 milhões de pessoas. \"E o que chamamos de ambulancioterapia\", ironiza uma médica do Samu. \"Não tem estrutura para dar conta, então atendemos na ambulância mesmo. Até cesárea já fiz assim.\"  \nNa \"sala vermelha\", como indica a folha de papel na porta, 18 pacientes esperam uma improvável vaga na UTI, a maioria sem monitoramento eletrônico. São homens emulheres infartados, com derrame, insuficiência renal a disputar no critério dagravidade e na sorte os cinco respiradores (só dois funcionam) e cinco monitores (trêsligados) . \"Aqui é o tudão\", diz um cirurgião sem se identificar, ao abrir a porta da sala ao lado, de traumas, onde dezenas esperam uma triagem que nunca vem. \"Chega gente com perna supurada, com tiro, com dor de barriga. Se não sabemos o que é e não temos como diagnosticar, fica aqui.\" Dias atrás morreram cinco por falta de sangue, diz.\"Semana passada, um por falta de glicose. Não passo um plantão sem assinar ao menosum óbito evitável. Nosso maior problema é falta de estrutura. \"  \nSe na segunda cidade mais populosa da Bahia, com 700 mil habitantes, a saúde é um caos, o que dizer dos ao menos 700 municípios que não dispõem de um único médico, como mostra um levantamento feito pela Frente Nacional de Prefeitos (FNP)? Não à toa, a falta de médicos nos hospitais públicos é a principal queixa dos usuários do Sistema Único de Saúde, segundo uma pesquisa realizada pelo Ipea em 2011: problemaidentificado por 58% dos entrevistados. Tema recorrente nas campanhas eleitorais, o impasse levou a FNP a mobilizar uma campanha para cobrar uma solução do Ministério da Saúde, com um abaixo-assinado subscrito por mais de 2,5 mil prefeitos.  \nAo anunciar a intenção de contratar médicos estrangeiros para suprir a deficiência, ogoverno federal recebeu o apoio dos prefeitos, sobretudo dos municípios do interior, com dificuldade de atrair e fixar médicos. \"Em Marabá, os médicos recebem remunerações entre 20 mil e40 mil reais, se somar salário e plantões, e ainda assim  \ntemos dificuldade para contratá-los\", afirma o prefeito João Salame Neto. \"Temos, sim, graves problemas de infraestrutura. Mas faltam médicos para atender a população. \" Amedida sofre, porém, resistência das principais associações médicas brasileiras. É inegável o viés corporativista de algumas manifestações de rua, puxadas por jovens com jaleco e nariz de palhaço e a pregar uma \"ameaça comunista\" com o possível ingressode médicos cubanos no País. Mas não há como desconsiderar as críticas às precárias condições em hospitais do interior e na periferia das grandes cidades. Qualquer um que visitar o hospital de Feira de Santana saberá que a simples chegada de médicos estrangeiros não mudará a situação caótica. \"Isso aqui é um 'morredor' de gente\", diz um dos sete médicos reunidos no intervalo na chamada \"sala do conforto\", uma saleta desofás encardidos repleta de beliches para descanso dos médicos. Ali, entre uma marmitae outra, eles discorrem sua insatisfação e garantem: o Clériston é só um exemplo do caos na gestão da saúde. 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