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No episódio Arkangel, apresentado na quarta temporada da série, Marie, preocupada com a segurança da filha recorre a um dispositivo de última geração para monitorar sua localização, uma espécie de chip, fato que, posteriormente, se agrava diante daemergência da puberdade da filha, isto é, o despertar de sua posição de mulher. Partindo de fragmentos do episódio, este artigo aborda a questão da devastação na relação mãe e filha. Direcionando-se ao conceito psicanalítico de feminilidade baseado nos textos freudianos, e defeminino no ensino de Lacan, pensa-se as consequências de um gozo que não está inscrito de todo na linguagem e que, diante da impossibilidade própria ao amor, encontra na devastação um modo de realizar-se.  \nPalavras-chave: Black Mirror, Psicanálise, Feminilidade, Devastação, Maternidade.  \nBlack Mirror é uma série britânica, lançada em 2011, que recebeu destaque mundialmente a partir de 2015, após ser exibida em sistema in stream por uma prestadora de serviço de assinatura de TV fechada.  \nOs episódios apresentam histórias independentes, mas têm um fio condutor, poisse trata de ficções sobre a sociedade contemporânea que, de forma irônica, inquietante ecatastrófica, debatem sobre bioética, em face dos possíveis avanços tecnológicos e seusefeitos psicológicos.  \nA produção audiovisual se destaca, assim, por dois pontos principais: o impacto das tecnologias no futuro, que pode estar bempróximo, bem como seus efeitos sobre as relações humanas e sobre o psiquismo. Este último ponto, muito nos interessa, por colocar  \nem questão o lugar do sujeito naquilo que se produz como tecnologia, destaca questões do coletivo e dos sujeitos em sua singularidade, apresentando o que em psicanálise tomamos como conflitivo inconsciente, através de sintomas, inibições e passagens ao ato.  \nEm vários episódios vimos o uso das tecnologias revelar algo do trabalho da pulsão, a qual não se esgota na funcionalidade que as ferramentas tecnológicas oferecem, dando a ver, através dos modos como cada um usufrui de tais ferramentas, seu caráter erótico emortífero pela via do que no artigo O problema econômico do masoquismo Freud ([1924] 1996) chama de desfusão da pulsão de morte, com toda sua potência de destrutividade. O título da série – em português, Espelhoda escuridão, representa a tela do aparelho  \nEstudos de Psicanálise | Rio de Janeiro-RJ | n. 53 | p. 119–128 | julho 2020 119  \nArkangel: sobre a devastação na relação mãe e filha em tempos cibernéticos  \ncelular de nova geração como um novo espelho em busca do reconhecimento de reasseguramento de imagem – parece evocar algoda própria constituição do sujeito.  \nO “estádio de espelho” seria um momento primordial para o desenvolvimento do “eu”, em que ocorre a unificação da imagem corporal, e a criança se reconhece como um serexterno à mãe, mas não sem a alienação dessa imagem, que se constitui a partir do olhardo Outro (Lacan,[1953-1954] 1998) . Logo, a unificação imaginária que aí se constrói é uma captura do olhar do Outro e, ao mesmo tempo, algo separado desse olhar.  \nConsiderando essa perspectiva, a noçãode um espelho da escuridão carregaria essadupla função exercida pelo espelho? A escuridão não daria nenhuma unificação, porque nela não se veria uma imagem integrada? Sem nos atermos a essas interrogações, que nos desviariam de nosso objetivo, elas nos interessam por aquilo que podem dizer dosujeito que passa a se formar a partir de uma imagem, mas que já circulava nos desejos dos pais em relação ao bebê, ainda na gestação. Um sujeito ","cbCainy72K3JNp1h","https://ap.wps.com/l/cbCainy72K3JNp1h","pdf",507662,10,"Portuguese","# Resumo\n## Contexto de Black Mirror e bioética\n## Tecnologias, psiquismo e pulsão\n## Feminilidade, feminilidade em Freud e Lacan\n## Estádio do espelho e imagem do sujeito\n## Recepção do episódio","[{\"question\":\"Por que o “estádio de espelho” é relevante para a compreensão do sujeito no texto?\",\"answer\":\"O texto relaciona o estádio de espelho à unificação imaginária e à captura do olhar do Outro, destacando como a formação do eu e as relações do sujeito são afetadas pela “escuridão” e por operações de corte.\"}]","Arkangel - sobre a devastação na relação mãe e filha em tempos cibernéticos | PDF",15]