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O texto percorre temporalidades históricas e discursivas, do medievo ao século XX, examinando exemplos literários e transformações simbólicas (metamorfose, animalidade) e discutindo como a medicina mental, especialmente no século XIX, formulou categorias sobre perversões sexuais. 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No que se refere à perversão enquantodenominação, estrutura e vocábulo, não foi estudada senão pelos psicanalistas.  \nInspirando-se em Georges Bataille , Michel Foucault planejara incluir emsua História da sexualidade um capítulo dedicado ao povo dos perversos, isto é , aos que são designados como tais pelas sociedades humanas, preocupadas em sedistanciar de um a parte m aldita de si mesmas. Inversamente sim étricas às vidas exemplares dos homens ilustres, dizia ele em suma , as dos perversos sãoinomináveis: infames, minúsculas, anônim as, miseráveis.1  \nEssas vidas paralelas e anormais, como sabemos, são inenarráveis, nãotendo em geral outro eco senão o de sua condenação. E, quando adquirem umareputação, é mediante o poder de uma criminalidade excepcional, julgada bestial, monstruosa , inumana , vista como extrínseca à própria humanidade do homem . Atesta isso a história incessantem ente reinventada dos grandes criminosos perversos, de epítetos assustadores: Gilles de Rais (Barba Azul) , George Chapman (Jack o Estripador) , Erzebet Bathory (a Condessa de Sangue) , Peter Kürten (o Vampiro de Düsseldorf) .2 Infindavelmente representados em romances, contos, film es ou monografias, essas criaturas m alditas suscitam , por seu estranho status — metade homens, metade anim ais —, um fascíniorecorrente .  \nEis por que entraremos aqui no universo da perversão, bem como na vida paralela dos perversos, pela via da metamorfose e da animalidade , dois tem as universais. Menos por interm édio dos poem as épicos que relatam a transform ação dos homens em anim ais, fontes ou vegetais que pelo mergulho nopesadelo de uma infinita redefinição, que faz aparecer, em toda a sua crueldade , o que o homem procura travestir. Com 20 anos de intervalo, entre 1890 e 1914, dois personagens da literatura européia , Dorian Gray e Gregor Samsa ,3 investiram-se de suas form as, um para fazer cintilar contra a medicina mental agrandeza do desej o perverso no cerne de uma aristocracia caduca que preferia servir à arte em vez de ao poder, o outro para desmascarar a nudez abj eta no cerne da normalidade burguesa .  \nIdentificado com seu retrato, de um a beleza deslum brante , Dorian Gray entrega-se secretamente ao vício e ao crime ao mesmo tem po em que leva uma vida opulenta . Em bora conserve os traços de sua eterna juventude , as  \nmetamorfoses de sua subjetividade pervertida gravam-se sobre a obra pintada , tais como emblem as de um a raça m aldita . Quanto a Gregor Samsa , sua mutação radical em um inseto gigante revela , ao contrário, a grandeza de sua almasedenta de ternura . Mas o ódio suscitado nos seus familiares pela visão de seu corpo imundo o levará a deixar-se apodrecer, e depois a ser expelido como umdejeto, após ter sido apedrej ado pelo pai.  \nOnde começa a perversão e quem são os perversos?4 Eis a pergunta a que este livro tenta responder, reunindo abordagens até então independentes, misturando auma análise da noção de perversão não apenas retratos de perversos e uma exposição das grandes perversões sexuais, como também um a crítica das teoriase das práticas elaboradas, sobretudo a partir do século XIX, para pensar aperversão e designar os perversos.  \nAcom panharem os o desenrola","cbCaid5OeXrob2ek","https://ap.wps.com/l/cbCaid5OeXrob2ek","pdf",1253747,182,"Portuguese","# Introdução\n## O sublime e o abjeto\n## Sade para e contra si mesmo\n## Iluminismo sombrio ou ciência bárbara?\n## As confissões de Auschwitz\n## A sociedade perversa\n# Agradecimentos","[{\"question\":\"Qual é a proposta central do livro na introdução?\",\"answer\":\"Responder onde começa a perversão e quem são os perversos, reunindo abordagens até então independentes e misturando análise do conceito, exposição de grandes perversões sexuais e crítica de teorias e práticas construídas sobretudo a partir do século XIX.\"},{\"question\":\"Como a introdução situa a influência de Bataille e Foucault?\",\"answer\":\"Bataille é usado como inspiração, enquanto Foucault teria planejado um capítulo na História da sexualidade dedicado aos “perversos” como uma parte afastada e maldita de si mesmos, com vidas descritas como infames, anônimas e miseráveis.\"},{\"question\":\"Que recorte histórico a introdução afirma que será percorrido nos cinco capítulos?\",\"answer\":\"A narrativa acompanha sucessivamente a época medieval com Gilles de Rais e outros personagens; o século XVIII em torno de Sade; o século XIX ligado à medicina mental; e o século XX, especialmente o nazismo e as confissões sobre Auschwitz, culminando em categorias contemporâneas de desvios.\"}]","A parte obscura de nós mesmos - Elisabeth Roudinesco | PDF",1788041195,280]